
O Texto que o Marco me obrigou a escrever
por Lígia Paz
Quando conheci a obra daquele que viria a ser meu companheiro,
Marco Mendes, jamais poderia imaginar o que me esperava. Nos
momentos seguintes à confrontação, senti-me como uma ostra num
campanário: afogueada e surpreendida perante a sua impulsiva
necessidade de fazer auto-retratos de anões viris; e assustada
com a íntima pulsão latente do seu traço. Temi que tentasse
regar-me com sumo de limão, para depois me devorar. Não estive
longe da verdade.

Lígia Paz |
Começemos pelo princípio: a sala da casa partilhada por Marco
Mendes com o seu parceiro d’A Mula, Miguel Carneiro, possui
contornos míticos. Cenário ora de festas, de uma mesa de
ping-pong, do sofá onde tanta gente dormiu e foi retratada, e
das paredes cobertas de desenhos e desabafos diversos. Era um
ambiente que cheirava a decadência e partilha, a excessos e
amigos, e à incontornável existência da piaçaba decrépita da
casa de banho. Ao sexo, drogas, álcool e rock’n’roll
associavam-se pelas paredes testemunhos autobiográficos e
plurais que primam pela sua transparência, crueza e intimidade
envolvente. E, muito frequentemente, um inesperado humor capaz
de surpreender um arenque bilioso.
Auto-centrado e contemplativo-romântico, decadente e alegre,
minucioso e javardo, a sensibilidade do Marco revela
contradições e complexidades, as quais ganham sentido e
naturalidade ao longo do seu trabalho. Desta forma, ao
virtuosismo técnico somam-se as rasuras e emendas, à melancolia
junta-se a pornografia, à representação do mundo real une-se o
absurdo e o ficcionado. A um lado negro, nostálgico, angustiado
ou por vezes solitário, acresce um humor por vezes inverosímil,
outras mórbido.
Em toda a crueza do seu realismo social, sem artifícios ou
auto-complacências, as representações e retratos dos que lhe são
mais próximos são também um testemunho geracional e de época. É
também notória a existência de um sentimento de partilha, de
identidade e de pertença – a um país, com as suas contrariedades
e cultura; e a uma comunidade, unida pela partilha de valores,
de experiências, e de cerveja a oitenta cêntimos.
As características do trabalho podem, ou não, ser catalogadas em
diferentes tipos de abordagem. No “desenho à vista”, os planos
são prolongados e os enquadramentos inusitados; surge com alguma
frequência um sentimento de tranquilidade nostálgica, atento a
pequenos detalhes e a facetas várias da vida quotidiana. Há uma
preocupação em capturar o ritmo fluído das palavras e
acontecimentos, num texto contínuo e frequentemente corrigido,
riscado, e deixado estar como se a borracha não existisse.
Já no trabalho de banda desenhada (e de “banda desenhada à
vista”, em tempo real) são exploradas as possibilidades rítmicas
inerentes ao formato, sendo o desenho frequentemente mais
explosivo, emotivo, e surpreendentemente cómico. É sobretudo
neste registo que os indivíduos retratados mais se distanciam
das suas personagens ficcionadas.
Nesta pseudo-realidade criada pelo punho do autor, atravessam o
espectro do melhor e do pior que todos encerramos - o absurdo, o
lado negro, o prazer, a alegria, o falhanço e as limitações
sexuais; os nossos gostos, fragilidades, perversidades e manias.
As interpretações e reflexões sobre a realidade ganham contornos
mais críticos e políticos, e a sátira ganha destaque.
Desde o ano de 2004 e até à noite anterior à inauguração, Marco
Mendes abdicou de um cargo de direcção numa empresa cotada em
Wall Street, de camareiro de strippers em Hong-Kong, e de lavar
a roupa com a devida frequência para afincadamente erguer a
produção artística que poderão, a partir de hoje, ter o prazer
de saborear na Galeria Plumba.