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José Cardoso – “Far East, Far West” – Oximoros
Inc.
Ao longo do tempo e à medida que fui acompanhando a obra do Zé,
foi sempre bastante claro um certo denominador comum entre os
personagens que formam o seu imaginário. É sempre algo
provocador de uma certa perplexidade pelo facto de ser uma
característica tão perceptível como, simultaneamente, difícil de
definir. É precisamente neste sentido, e um pouco por
brincadeira, que me lembrei de os chamar de “Oximoros”,
aproveitando o som curioso que, em certa medida, lembra
gambuzinos, pixies e afins. Mais do que o jogo fonético e
semântico, aquilo que se identifica com os personagens do Zé é a
raridade de uma palavra – oximoro – utilizada como sinónimo para
paradoxo, para uma contradição interna, à qual, aqui acrescento,
uma certa ironia auto-referente.
É precisamente neste sentido que trabalha todo o denominador
comum entre os diferentes trabalhos desta colectânea que, grave
no comentário e leve na sintaxe, recria condescendente,
superficial e premeditadamente a perspectiva cómoda de um alegre
e curioso entretenimento, ao mesmo tempo que um autêntico,
subtil e impiedoso comentário a estilos de vida, clichés, guilty
pleasures, ao blasé e, principalmente, ao processo
representativo que a sociedade detém em incorporar em si o lugar
comum, a cultura popular, para deles extrair a réstia de
independência dessa faceta intocada por uma cultura mais
artificialmente globalizante do que naturalmente global.
Toda esta obra explora o potencial do lugar comum, cuja ironia
parece começar e acabar em si mesma, o que faz com que seja uma
obra extremamente acusatória sem, no entanto, se perder na
convencional necessidade de ancoragem alegórica da ilustração e
da caricatura. A obra serve-se, em grande parte, de um certo
nível de ambiguidade, quebrando o vínculo com estas últimas
quando se afasta do local e circunstancial, expondo antes aquilo
que a define global e colectivamente mais como discurso do que
como uma narrativa.
Se por um lado a caricatura assegura e tranquiliza, por se saber
qual o destinatário, por outro, a obra “Far East, Far West”
confronta-nos com a possibilidade de um público anónimo tomar o
lugar de personagem caricaturada, sendo difícil considerar este
retrato como algo inofensivo, embora o osso seja atirado a quem
o quiser apanhar e desse modo sair tristemente ileso.
A sua linguagem recupera, habilmente, uma estratégia em que a
técnica detalhada e o aparente universo naif, a par de alguns
“truques” de persuasão apropriados do advertising e do
merchandising, emprestam um discurso subliminar ao carácter da
obra dando uma falsa, mas atractiva sensação de segurança, de
distância das criticas mordazes, de imaginários bizarros,
irónicos e ambiguamente directos das quais apenas (a mãe do) o
autor parece estar a salvo.
Os padrões intrincados e os pormenores funcionam, num primeiro
nível, como uma inteligente, hipnotizante e insidiosa âncora
para a humana avidez por labirintos e padrões insolúveis. Estes
funcionam como uma espécie de antecâmara para a primeira casa do
jogo de descoberta, para o bem e para o mal, da resistente
humanidade na fábula em que vivemos.
Este é um registo que não sobrevive de uma rima fácil e, é aí,
que reside a aguda ironia do seu trabalho. Se o detalhe e a
racional apropriação de um universo naif parecem ser seguros e
convidativos, esta é apenas uma camuflagem para algo sombrio e
perigoso, para a armadilha que é a própria imaginação. É
precisamente neste sentido que a obra trabalha. Se por um lado
expõe os processos intrínsecos à anatomia da recriação e do
consumo, por outro, serve-se deles para deles sobreviver.
Ao levarmos um projecto destes a uma galeria levamos também um
lembrete irónico de que fazemos parte desta interpretação da
actualidade pop ocidental e da forma como a sociedade se
alimenta dos vários fenómenos populares que vão nascendo ora
através de produtos culturais, ora cozinhados na ribalta do
quotidiano.
Numa retórica simples é-nos recordado que de pouco ou nada nos
serve fugir daquilo a que Milton chamaria de “os demónios da
auto-complacência” que, trancados no anónimo quotidiano
colectivo, são aqui soltos, expostos e coleccionados em toda a
sua paródia e fascinante contradição, numa autêntica recriação
do que hoje celebramos, aqui e agora, neste minúsculo bairro
afluente do grande empório global.
Existem, neste sentido, referências gráficas no universo manga,
pintura naif mexicana, propaganda política soviética, cinema
indiano, poesia nórdica, banda desenhada norte-americana,
tradição portuguesa, bodegas espanholas, mulheres francesas,
comida italiana, cartaz polaco, british invasion, tudo para
tentar compreender o papel da crescente globalização no nosso
quotidiano.
Violeta Moura
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