Herbário de Gestos, 2007.
A envolvência quotidiana com práticas de jardinagem no espaço
onde habito, tem vindo a acentuar, o meu interesse pelas
questões em torno do conhecimento e da representação das
espécies botânicas. A possibilidade de plantar flores no
exterior, acompanhar o seu crescimento e conhecer os seus
aspectos morfológicos constitui uma vivência muito aprazível e
que se reverte em momentos de tranquilidade no espaço doméstico.
Na sequencia deste estímulo de relação com a natureza e com o
valor simbólico que transporta consigo, no “entendimento do
desenho, como a materialização de uma acto consciente – onde o
gesto incorpora o acto do pensamento” (NEWMAN cit. ZEGHER: 2003,
72), constituiu uma razão, para explorar a experiência
perceptiva segundo novos modos e processos.
Merleau Ponty (1908-1961) na sua obra, O Visível e o Invisível,
refere que o conhecimento do mundo tem origem na vivência de
cada um. São as nossas aprendizagens, experiências e
sentimentos, que perspectivam a nossa percepção e acção. A
vontade de saber mais, sobre esta temática viva e mutável,
conduziu ao desenvolvimento de um conjunto de práticas, ao nível
dos processos pictóricos num entrosamento, com os modos de
classificação e arquivo das espécies botânicas.
Herbário de Gestos, reúne um conjunto de 50 desenhos realizados
em 2007. O corpo de desenhos, que se apresenta, recorre a uma
espécie em particular: as raízes tuberosas das dahlias. Cada
desenho foi realizado a partir do natural. As características
materiais de cada um, são as seguintes: 51x36 cm, aguarela
Rembrandt sobre papel winsor & newton, 220 gramas 100% algodão
satinado. A pena gráfica e o pincel chinês, foram os
instrumentos utilizados.
Revelar o que da essência das dahlia, se deixa expressar,
através do gesto que as desenha, foi um dos objectivo de
orientação. Dentro da mesma espécie botânica, variam os
referentes, e sem intenção objectiva, o tom da aguarela. A
dimensão, o suporte papel, o pincel chinês, a pena gráfica e a
escala de representação, são uma constante.
A escolha do referente - as raízes tuberosas das dahlia,
prende-se com o significado do próprio termo. A raiz é o órgão
das plantas superiores, que se situa na posição inferior do
caule. Cresce no seu sentido inverso, destina-se a fixar a
planta ao solo e a absorver as substâncias que a alimentam. As
raízes possuem pequenos tubérculos carregados de reservas
nutritivas que a seu tempo irão desenvolver-se, rasgar o solo,
desabrochar e florescer.
O reconhecimento icónico e simbólico da raiz vegetal, aponta
para a intenção subjacente que os procedimentos e a
experimentação pictórica procuram explorar. Associar a raiz da
dahlia, por um lado, como conceito vinculado aos significados de
origem, principio e ligação entre as partes que a constituem e
por outro lado, apreender as tensões, os movimentos, a
intensidade das marcas transferidas para o gesto que traça e que
configura cada tubérculo, antecipando as implicações temporais
que a metamorfose e o crescimento da espécie convoca. Usar o
corpo, como médium de transporte, na transferência de
certas características da espécie para o acção do gesto, do
pensamento. Entre o manusear do pincel e da tinta aquosa, na
observação de um detalhe ou da totalidade da forma. A repetição
de cada gesto, seja rápido ou lento, hesitante ...
interrompido... procura nos contornos, nas pausas e nas marcas
de cada acção, os limiares da representação.
Rosário Forjaz.
Galeria Plumba, 20 Setembro, 2008
MERLEAU-PONTY, M. (1971), O Visível e o Invisível,
Editora Perspectiva, São Paulo.
ZEGHER, Catherine de, (2003) The Stage of Drawing: Gesture
and Act, Tate Publishing and The Drawing Center, New York.