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A origem desta Calçada Portuguesa, e quem
sabe de outras que hão-de nascer, foi a surpresa de uma amiga
basca, pela primeira vez em Portugal "nunca poderíamos ter isto
no meu país" - afirmou. É evidente porquê: em certas terras o
imenso potencial da nossa morna calçada como arma de arremesso
não seria desperdiçado. O enorme paralelo parisiense de 68 (que
não é para todos) teria aqui uma versão ligeira, mais eficaz
pela rapidez e acessibilidade a todos os públicos enraivecidos
sem discriminações de ordem muscular.
Quem se lembraria de tal na terra da fumaça? Esta nação
entristecida que passeia ordeiramente e só se alvoroça se algum
arranjo "urbanístico", sem querer, lhe altera a paisagem de
sempre?
Sossego, portanto, só as culpas são atiradas a torto e a direito,
por todos sobre todos, abstractamente, pelas costas,
aproveitando o nevoeiro.
O Manifesto anti-Dantas foi escrito por Almada Negreiros em 1915
por reacção a um artigo de jornal. Seriam os poetas de Orpheu
loucos? Segundo o Dantas, eram sim senhor, loucos de encerrar.
Esta motivação reactiva do Manifesto, vingativa, escondeu-se num
jeito de declaração estética mas deixou nódoa.
A nova versão que aqui se apresenta tem o novo pessimismo
nacional como actor autor.
Ao contrário do que uma observação descuidada poderia levar a
pensar não se trata de uma negação do Manifesto original.
Acrescentando a palavra "não" de forma quase aleatória (respeitando
apenas as regras da língua portuguesa) consegue-se um novo texto
ininteligível, uma negação elevada ao quadrado, ao cubo, ao
absurdo. Tudo aqui foi manipulado num imprevisível jogo de
espelhos, um assunto de homens é lido por uma jovem mulher, o
insulto é dócil até que algum reflexo nos faça perder o norte
outra vez.
Continuando, pede-se ao visitante que resista à tentação cansada
de se sentar no sofá, aliás a casa está em obras e os calhaus
recobertos de açúcar estão lá postos em sossego, invertendo o
caminho de Duchamp, que utilizou mármore à laia de cubinhos de
açúcar para o café.1
Ter-se-á encontrado açúcar em vez da Praia debaixo desta
lusitana calçada nunca levantada?
Seremos todos racaille? 2
Numa noite de nevoeiro repetiram-se os gestos da dita escumalha,
com o alento da vida, o sopro quente, recuperando um jogo
infantil marcando os carros estacionados na cidade, os bancos,
as cabinas telefónicas, as galerias de arte: Brûle! ( = Arde!).
Em frente ao sofá temos o escadote - já avisamos das obras em
curso - e os vídeos Praça de Espanha, realizado naquela praça de
Barcelona, e Ready
-Made, que documenta uma performance levada a cabo no Parlamento
autónomo da Extremadura espanhola (Mérida). Ambos fazem parte de
uma série de acções designada por Comodidade Europeia. Josian e
Juan, imigrantes romenos e artistas de rua em Mérida, foram
convidados a dar música a uns falsos deputados que desesperaram
por um lugar sentado. Este jogo romano, da “cadeira”, era usado
entre os legionários para seleccionar voluntários à força. Tudo
foi registrado pela próprias câmaras de vigilância do parlamento.
As plantas que nascem sem pedir licença têm um triste fim, nesta
praça de Espanha, também praça de Schengen. Entretanto, os
romenos vão tocando um intermitente mas satisfeito Que viva
España!.
Sem sair do mundo da tele-vigilância, uma webcam filma
dia-e-noite o nova-iorquino Empire State Building. O que
esperará filmar, esta exagerada máquina que duplica, saudosa, a
sua visão do mundo?
Na esquina da sala, junto ao cacto, temos um Hans Haacke
suspenso com a mesma técnica usada por Maurizio Cattelan para
fazer flutuar o seu galerista. Levitação tão eficaz como a
própria aquisição do livro, que documenta a criminosa televisão,
uma fuga airosa de um armazém multinacional que só com muita boa
vontade se poderá chamar livraria.
Não escapa ao ridículo esta micro-acção, de micro-terrorismo
poético, infinitésima homenagem a alguém que se tem dedicado a
desmascarar as obscuras relações de poder no mundo da alta
cultura. Consciente de todos estes perigos o protagonista,
pequeno racaille intelectual, actua impune como uma personagem
de caixinha de música.
Mais música.
1. Marcel Duchamp, Why not sneeze Rrose Selavy? - Ready-Made,
1921
2. Racaille = escumalha. Palavra utilizada pelo ministro do
interior francês para caracterizar os habitantes dos bairros
periféricos das grandes cidades. Estas declarações levaram à
violenta reacção em cadeia que se saldou em milhares de
automóveis queimados.
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