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Mutatis mutandis
O acto que cria é simultaneamente o acto que destrói. Na
construção de uma simulação de identidade comum, a possibilidade
do discurso reitera as impossibilidades de pertença. Ao
pensarmos o lugar pensamos os seus diversos estatutos – o lugar
como entidade humana, o lugar como entidade social, o lugar como
entidade histórico-cultural. A simulação desse lugar no interior
das sua referências – matérias e contextos – expande a finitude
das suas possibilidades. Como se um lugar existisse para lá da
sua real vivência e fosse possível realizar o Outro dessa
experiência.
Se a natureza fosse apenas e tão só a sua matéria primária–
árvore, terra, milho ou pão – falharíamos a consciência da sua
perenidade. A sua continuidade como o Homem à sua volta
construindo eternas relações de necessidade. Da árvore há fruto;
da posse do alimento criou-se a necessidade da sua negociação.
Da terra se vive e a ela se regressa, como excremento e corpo
pútrido. E do pão o Corpo, inteiro consumido em multiplicado.
As formas, as coisas detém em si a possibilidade de uma outra
existência; existência que se prefigura essencialmente como
memória de algo que já foi. O resto das coisas, o que delas
sobra, relembra-nos, continuamente, a tragédia de já ter sido,
sabendo que jamais se o será.
Resta-nos a simulação e a possibilidade de mudar o que deve e
pode ser mudado, recriando eternamente a finitude das coisas,
esperando que a inoperância destes objectos possa configurar o
absurdo das suas situações.
Cláudia Lopes para Dalila Gonçalves, Maio de 2007
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