projecto biblioteca: primeiras aproximações – carlos barros


a ideia das palavras que tem um eco na forma dos objectos ou vice-versa, em todas as línguas do mundo. ex.: a diferença entre persa e árabe. ritmo versus evocação/miragem. benjamin/foucault. biblioteca amiga. constituída de livros que evocam, nomeiam outros livros, livros que são uma saída para fora da galeria, que obrigam a uma procura em outras bibliotecas. seguir os caminhos poeirentos dos livros. os livros que evocam uma viagem.

o balbuciar entrecortado de alguém com paralisia ou qualquer outro tipo de diminuição, que no entanto se faz entendível. a raiz comum da linguagem, os fonemas essenciais. jean-pierre brisset, "la grammaire logique", o arbitrário como lei fundamental, ou fundadora da linguagem. cada palavra, uma frase contraída.

no enunciado inicial de um doente ao médico está cifrada a sua dolência e possível cura. a relação dos contos e do acto de contar histórias com a cura de certas dolências, o fluir da narração derrubando as obstruções do organismo, os possíveis diques ao seu perfeito fluir.

a árvore de walter benjamin: as antiquíssimas bodas da linguagem e da árvore. os filhos dessa união como língua em imagens levadas por toda a terra transportadas pelo vento. as figuras/esculturas de letras de jaume plensa. o silêncio, o segredo entre as palavras, cada palavra como a petrificação desse jogo aleatório dos sons. grasnidos, gritos, urros, murmúrios, o vento entre as folhas que arrasta a canção. as raízes do desenho da língua árabe com origem no horizonte onde esta foi criada. o cantar gutural de tuva, eco do ritmo do vento, o fluir dos rios, o degelo das montanhas, a percussão do galope dos cavalos no coração do cavaleiro, cantor, contador.

contrariamente a um dicionário, o qual é parte integrante e fundamental de uma biblioteca, a biblioteca em si resulta como uma mostra virtualmente infinita das variantes possíveis, reais, fantásticas, imaginárias, delirantes, das palavras e seus por vezes inapreensíveis significados. o dicionário petrifica a linguagem, a biblioteca amplia o leque de possibilidades do seu uso. nela está presente algo desse primeiro grito, primeiro exabrupto da primeira rã que saiu do pântano original.

como podes aprisionar uma onda numa palavra? medir a sua extensão, profundidade, amplitude?
como um molhe que entra no mar (da linguagem), derruído pela força e o ímpeto dos significantes, forma cifrada das ondas. assim é a própria linguagem, inapreensível nos seus limites, fugaz nas suas formulações.
(porque preferimos os molhes instáveis para testar a inconstância da linguagem?)

o brilhante tótó no delírio evangelizador de "ucellacci i ucellini" (?) de pasolini, a sátira do sermão aos pássaros.
a biblioteca. alexandria. a biblioteca de borges. a real e a imaginária. os apontamentos nas margens dos seus livros, inscritos pelas mãos mais ou menos anónimas do seu exército de leitores. a(s) "biblioteca(s)" de umberto eco.

"en el interior de la palabra alba
el alba se elevará"
sohrab sepherí

os balbucios repetidos da criança, como descobrindo as próprias capacidades de produzir sons. a repetição incessante de um mesmo som, percutindo no seu interior, a caixa de ressonância tão emparentada com o próprio bater do coração, a cadência do respirar.


água

vejo alexandria, os canais secretos da biblioteca, como a intrincada rede de canais em constante mutação do regadio dos campos. cada dia é regado um campo diferente. o passo aberto ao fluir. a construção com as mãos e as ferramentas dessas passagens, o desbordar da linguagem. a comunidade reparte a água pelos elementos que a constitui como os cantos e a lendas são postos em comum á lareira ou nos trabalhos e festas comunitárias. procurar texto de berger sobre as estrelas.


II.


a ideia de que os primeiros contadores inventaram os nomes e os mitos das estrelas.

"(...) imagining the constellations did not of course change the stars, nor did it change the black emptiness that surrounds them." - john berger

essa sede momentaneamente saciada pelas palavras, esse cântaro que não podemos nunca colmar de conhecimentos, que parece apenas agrandar-se quanto mais avançamos nos caminhos das línguas e das linguagens. na verdade cada encontro, deixa apenas a sede de mais e mais profundos ecos, ressonâncias, re-conhecimentos.
a biblioteca é o lugar de culto desta estranha e sedenta religião.

como pedra atravessada pelo sopro da verdade
(da palavra)

imaginei livros, desses velhos com a capa apenas legível, talvez uma enciclopédia, ou um conjunto de antigos dicionários, atravessados por canais de barro ou gesso, ou madeira, algum material orgânico(...)

biblioteca de a bordo- "abc do buceo" (num texto sobre joyce, ricardo piglia escreve sobre a condição do escritor como mergulhador, a imersão na linguagem).
uma magnífica entrada: biblioteca de visionários, heterodoxos y marginais.

jogos de palavras de significados como nos textos de brisset. ("sete sentenças para o sétimo anjo.", michel foucault). fazer da linguagem algo vivo. criar um ambiente orgânico, que se sinta quando entras no espaço da instalação. quente.


vídeovideo: gravar as mãos que preparam o caminho da água. uma voz ecoa palavras, escritas? ou ditas?, a voz é a criação.

"el ser humano és un largo pergamino de espera" - sohrab sepehrí

ao fim e ao cabo se o Amigo está nos amigos porque não fundar neles a nossa casa?

a ideia de que os livros também viajam fisicamente. por dentro e do anverso...

"regresso á fonte de onde brotam os mitos da terra" - s. sepehrí

no ambiente meio vegetal do porto, (estufa?), a humidade, a terra, a pedra, o calor, as palavras, os amigos, como ambiente primordial. a memória parece ser a sua condição natural. por vezes esquece-se...

" ven, hundamos el techo de las esferas celestes
y lancemos allí los cimientos de una estructura nueva"
- hafez
trabalhar a terra e contar uma história
trabalhar a memória. a terra é uma história


"(...)

vi que el arból existía.
si existe el árbol,
es claro que hay que existir.

hay que existir
y seguir
las huellas de las historias contadas
(...)"


iii.


a natureza da linguagem. o conceito de semelhança imaterial, analizável através da língua e das danças tradicionais. a faculdade mimética.
porque: “a língua é o estado supremo do comportamento mimético e o mais perfeito arquivo de semelhanças imateriais.”- walter benjamin.
uma teoria segundo a qual todas as palavras, seja qual for a língua em que estão escritas, seriam parecidas no grafismo da sua escritura, aquilo que designam.
a biblioteca seria desta forma, o culminar dos sucessivos processos, etapas de mimetização do real em todas as manifestações, chegando ao último estado de “redução” da realidade, ao movimento dos signos utilizados pela linguagem para se manifestar. um eco, ou uma cópia do mundo de acordo com as capacidades, conhecimentos e sensibilidades do “agente alquímico”, o processador, oficiante dos mistérios das palavras.
ex: esperava-se que os usuários, os sábios beneficiários do saber contido na biblioteca de alexandria operassem como agente filtrador de informação, que pudesse chegar a uma versão mais polida, necessariamente mais económica no uso das palavras, redutora talvez, mas porque não pensar que em casos, teria acertado com a palavra, ou o conceito adequado para melhor expressar um acontecimento ou percepção. usualmente considerava-se que a última versão seria a mais perfeita, que substituiria portanto todas as anteriores.

nunca se sabe ao certo o quê ou quem engendra o quê. se uma experiência uma linguagem ou uma linguagem uma experiência. ( brodski)

ler é frequentemente retroceder os passos caminhados no percurso real e mental de alguém antes.

actualmente encontramos na linguagem a reverberação latente, como o que resta na pedra como vestígio de um acto mágico ou a realização de um mistério.

“uma rede de vasos comunicantes que irriga a biblioteca”

“el mar es la primera palabra”. eduardo moga


iv.


não se escreve poesia. vive-se poesia. todos os estímulos que nos atravessam os sentidos são o elemento primeiro, a casa da palavra. a voz que encontra o seu leitor.

"(...) espigar também se diz das coisas do espírito. espigar feitos (acontecimentos), espigar andanças, espigar informação (...)".
agnés varda
"(...) durante largo tiempo los libros han sido instrumentos de las artes adivinatorias."

por vezes é perturbante o acto de ler numa biblioteca, devido às vozes, à acumulação de conhecimento que nos espreita desde as estantes. o livro que temos entre as mãos não será mais do que o umbral de entrada na criação, na invenção, na casa-mãe da palavra.

"(...) a cada piedra se adhiere una leyenda".
lucano, "the civil war (pharsalia)"

"(...) el sentido del sublime" surge no de la visión de un objeto exterior, sino de la reflexión del que lo contempla; no de la impresión sensorial, sino de la reflexión imaginativa" (...)".
samuel taylor coleridge, "literary remains"

a torre de babel (espaço) e a biblioteca de alexandria (tempo)

não a voz única, a língua unitária de todas as línguas, comum a todos os seres da terra, mas uma diversa infinidade de pequenos, gigantes universos, cuja singularidade suponha ao mesmo tempo a imagem ou propriedades de toda a criação. no diverso encontrar o único e viceversa.

na sua conjugação de todo o saber passado e futuro, a biblioteca de alexandria teria prevista e contida em si a história da sua própria destruição e ressurrecção como fénix habitando para todo o sempre o seu lugar na nossa imaginação. a biblioteca de alexandria era em si uma variedade de bibliotecas centradas em observar e registar as características dos múltiplos aspectos do mundo. distintas concepções, diversas aproximações.

a ideia do livro ainda não aberto, que leva cifrado em si os contornos do nosso destino.

"andándote tu idioma por los hombres"

"la dirección del água que corre a ver su límite antes que arda"
césar vallejo

conforme nos adentramos no fluxo de uma narração, um exercício de dispersão da própria personalidade na experiência e conhecimentos de um número virtualmente infinito de outras mentes, executamos, por vezes de forma ignorante, o movimento inverso, e percorremos de novo os nossos próprios canais interiores, as diversas concepções que temos afincadas como certezas sobre a vida, o mundo e suas manifestações, questionando, renovando, ou reafirmando o percurso próprio como portadores de conhecimento, memória, vida latente.

"you're going to reap just what you sowed", lou reed
(if you're going to read just watch your soul)

"uma forma de comunicação inesgotável no espaço e no tempo"

"amplia o âmbito da experiência e abre até ao infinito a interacção com outras mentes"
apartir de tzvetan todorov

"actuam com um líquido de revelar películas, quer dizer que te fazem ser consciente do que não sabias que não sabes".
clifton fadiman

o leitor que termina um livro volta a ser deixado no ponto de partida antes do início da viagem que pressupõe a leitura. se a aventura for bem sucedida, o leitor começará de novo, algo mudado (alterado, distinto?).

os arquipélagos de ilhas (baleares, gregas, sicilia,...) podem ser consideradas como símbolos e presenças de uma imensa biblioteca aberta. voltamos à água, à origem.